sábado, 7 de janeiro de 2012

Portugal: Castelo e Muralhas de Trancoso - Guarda

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Maravilho monumento da historia nacional, este castelos de belas torres e grandes muralhas parece desafiar o tempo e as intempéries.

Sobre elevado planalto da acidentada região nordestina beirã – ali onde nasce o Távora, cujas águas, percorrida a nornoroeste meia centena de quilómetros, vão vasar-se nas do Douro – tem assento a Vila de Trancoso, e, dentro dela, o vetusto castelo que durante séculos atentamente custodiou a primitiva povoação, cujo âmbito os perdurantes restos do medieval muralhamento ainda permitem conhecer.

Na sua configuração definitiva, o castelo de Trancoso mostra-se constituído por uma assaz extensa linha de muralhas, reforçada por cinco torreões, circundando o terreiro no qual se ergue, um tanta descentradamente, a robusta mas atarracada torre de menagem, cuja forma curiosamente se afasta um tanto do habitual paralelepípedo, para tomar, embora pouco acentuadamente, a de pirâmide quadrangular truncada. Duas portas rasgadas na muralha dão acesso ao terreiro; e, na torre de menagem, uma janela aberta em arco de ferradura permite conjecturar que esse elemento do castelo – talvez o unico inicialmente – representa construção, ou mais provavelmente reconstrução, realizada em época do domínio muçulmano, sendo assim bem mais antigo, portanto, do que a muralha, erguida e reerguida quando já a tranquilidade de posse portuguesa se cimentara por aqueles lugares.

Historicamente o castelo de Trancoso tem muito de comum com o de Penedono, que dele dista para norte, umas cinco léguas. Sem mergulhar em mais vetusta história, a dos tempos romanos e das sucessivas invasões que se seguiram, pois seus traços só vaga ou duvidosamente podem ser entrevistos – mas remontando apenas aos começos da segunda metade da Idade Média, um impressionante paralelismo pode ser invocado. Assim, ambos esses castelos figuram na lista dos doados ao mosteiro de Guimarães em 960 por D. Chamoa Rodrigues, que de seu pai, Rodrigo Tedoniz, promotor do repovoamento dessa zona, os herdara; ambos suportaram durante um século desde pouco depois daquela doação até à definitiva reconquista das terras de Entre-Douro-e-Mondego pelo monarca leonês Fernando Magno, que abrangeu a de Trancoso em 1057 ou 1058, as alternativas de posse muçulmana e de posse cristã; ambos constituíram, bem mais tarde, acarinhados domínios da notável estirpe dos Coutinhos. Porém a história do castelo de Trancoso abrange, a par desses traços comuns, outros que lhe são próprios, Em 1140, ao tempo em que uma ofensiva muçulmana atacava e destruía o primeiro castelo português de Leiria, outra flecha invasora avançou pela Beira até Trancoso, saqueou a povoação, e danificou sem duvida o castelo; mas Afonso Henriques sobreveio com gente de guerra, repeliu os assaltantes, reconstituiu a vida cristã e restaurou a defesa casteleira. Uns vinte anos depois, em data cuja precisão é desconhecida, deu ele a Trancoso a seu primeiro foral, premiando assim a esforçada gente que, sem temor de novos ataques, ali regressara, ou para ali viesse acrescentando aos velhos leres novos lares. Em 1207, D. Afonso II, confirmando esse diploma foraleiro, usou de termos que traduzem aumento da população e mais assente a vida humana. Ora é intuitivo que com esse progresso demográfico e consequentemente económico devem ter coincidido o desejo e as possibilidades de conservar o amparo que à povoação dava o seu castelo.

Volvidas umas quatro décadas, nos agitados tempos dos últimos anos, do reinado de D. Sancho II, o domínio do castelo de Trancoso atravessou vicissitudes análogas às de muitos outros, mas acabou por ficar em mãos de adeptos do regente nomeado por Inocêncio IV, o infante Afonso, irmão do Rei e seu futuro sucessor. Em 1248, quando as forças militares do infante castelhano, futuro Afonso X, que tinham vindo auxiliar o monarca português deposto, se retiravam para Castela, após derrotadas próximo de Leiria, indo com elas, a caminho do exílio o próprio monarca, ocorreu, ao passarem por Trancoso, um episódio com muito daquele espirito de cavaleria tão característico da Idade Média. Do castelo saiu um dos cavaleiros que o ocupavam, Fernando Garcia de Sousa, e veio desafiar para combate singular Martins Gil de Soverosa, fiel mas algo turbulento servidor de D. Sancho II e alto personagem da sua Corte, afirmando que a sorte do duelo decidiria o destino político do castelo; porém Sancho II opôs-se à realização do encontro, decerto por convencido já de se achar perdida, ao menos de momento, a sua causa. Assim, a hoste retomou a marcha e no castelo de Trancoso tudo se manteve como anteriormente, no acatamento do poder exercido pelo Regente.

Com o advento do filho e sucessor de D. Afonso III, D. Dinis, novamente o castelo de Trancoso se insere na vida geral da Nação. Com efeito, foi este ilustrado monarca quem oito anos depois de ter recebido por esposa nessa vila, a 24 de Junho de 1282, D. Isabel de Aragão, a Rainha Santa, promoveu o muralhamento da povoação, reforço de defesa militar que indubitavelmente acarretou o do castelo, como, aliás, decerto lhe aconselhava o seu latente desejo de obter para Portugal, diplomática ou militarmente, o território chamado de Riba-Coa, frente ao qual aquela fortaleza era, por assim dizer, quase fronteiriça.

Por um século, os acontecimentos do castelo de Trancoso esbatem-se numa prolongada vida rotineira, e só as perturbações políticas acarretadas pela morte de D. Fernando vem reacender-lhe o brilho nas páginas da história nacional. Ao findar a primavera de 1385, planeando João I de Castela a sua segunda invasão de Portugal, que logo veio a realizar, aliás sem êxito, pela fronteira de Elvas, ordenou que outras forças castelhanas simultaneamente talassem as terras da Beira; assim, troço de gente de guerra transpôs a fronteira portuguesa por Almeida, passou junto de Trancoso, destruindo culturas, queimando casas, cativando moradores, até atingir Viseu, cidade aberta que igualmente sofreu violências de saque e de incêndio. No castelo de Trancoso, o alcaide, Gonçalo Vasques Coutinho, sem forças militares que pudessem medir-se com as do invasor, numericamente muito superiores, houve de assistir impotente à decorrente razia; porém, quando o inimigo regressava, conduzindo avultado número de camponeses que aprisionara e abundante produto dos saques realizados, saiu-lhe ao caminho com seus homens de armas e numerosa peonagem que armara, forças estas a que se tinham juntado as do alcaide do castelo de Linhares, Martim Vasques da Cunha, e as do de Celorico, João Fernandes Pacheco, a cujos bons ofícios se devera a reconciliação pessoal daqueles dois importantes nobres regionais, até então desavindos. Travou-se, então num dos primeiros oito dias de Junho, ali perto, no alto da capela de S. Marcos. o importante recontro conhecido pela denominação de batalha de Trancoso, cujas circunstâncias políticas, bélicas e cronológicas se acham minuciosamente estudadas, em livro assim mesmo intitulado, pelo mais proficiente historiador desse sucesso e dessa época. o Dr. Salvador Arnaut, e cujo desfecho completo, destroço das forças castelhanas e recuperação das suas presas, pessoais materiais – constituiu notável contributo para a consolidação da autoridade do Mestre de Avis e subsequente triunfo da causa portuguesa nele personificada.

Pouco depois houve novo alarme no castelo de Tracoso: correndo o mês de Julho, forças inimigas sob o comando do próprio monarca castelhano entraram em Portugal, também por Almenda e foram passar no alto de S. Marcos, cuja capela furiosamente incendiaram;, de aí, porém, a hoste virou ao sul para Celorico, encaminhando-se para Lisboa, que afinal não chegou a atingir, destroçada como veio a ser na batalha de Aljubarrota, Duas novas invasões, em 1396 e 1398, se derramaram por aquelas terras beirãs, mas já então a aura da paz se pressentia próxima, essa paz que tornou possível o advento duma nova fase da vida nacional, a de actividades já não circunscritas ao estreito quadro peninsular, mas alongadas ao vasto panorama ultramarino, para o qual uma velha vocação marítima como que predestinara Portugal. Depois, séculos correram sobre séculos; e, remotamente extinta a eficiência militar dos velhos castelos, este aqui evocado ficou praticamente confiado ao amparo da povoação que fora inicialmente sua pupila – a risonha e progressiva vila de Trancoso.

Porém o castelo de Trancoso não revive apenas nas efemérides policias e militares da sua existência, porquanto nele a História e a lenda se conjugam: a Lenda doirando a História, quer com a animação dum imaginado, mas vivificante halo de sobrenaturalidade, quer com a evocação dum heróico feito individual em que a imaginação popular fundiu duas épocas cronologicamente bem afastadas. Com efeito, em alguns escritos seiscentistas ficou arquivada a tradição de que peca a vitória de Trancoso muito contribuíra o próprio evangelista S. Marcos, miraculosamente aparecido, como valoroso cavaleiro, a estimular e coadjuvar os combates portugueses; numa rocha teria ficado mesmo impressa a marca duma ferradura do seu cavalo.

Desta confusa e intricada trama de tradições, uma condução é licito tirar: a de que na alma do povo viveu, transmitindo-se de geração em geração, fundindo-se em parte, e em parte dissociando-se, mas sempre aureolada de lendário adorno, a memória de dois dos mais vivos episódios históricos a que se acha ligado o castelo de Trancoso, os de 1140 e de 1385.

E é assim – na evocação da gloriosa história do castelo de Trancoso, e no halo de tradições, dela poético complemento – que ainda hoje podem e devem ser contempladas essas muralhas e essas terras que em momentos críticos da vida nacional, o do seu crescimento e o da sua definitiva autonomia, constituíram solido reduto donde partiram para a defesa da Pátria alguns corações verdadeiramente portugueses.

Castelo de Trancoso (no.sapo.pt)

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